O Circuito da Aprendizagem

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(Autor: João Leite, Psicólogo) 

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EMOÇÃO

APRENDER é o ato de colocar o cérebro a dançar! Ao ritmo das sinapses!
E as sinapses são LIGAÇÕES lubrificadas, por interferência facilitadora dos mediadores químicos.
Ora, tais mediadores, só surgem e cumprem a sua função quando são desafiados para tal, ou seja, sempre que a situação desperte os sinais vitais no indivíduo:
- seja algo que ressalte valores de sobrevivência ( literal ou metafórica );
- seja algo que incendeie, desperte os circuitos de prazer…, que revele significado.

Se se trata de uma dança…com os ingredientes atrás referidos, como poderemos esperar que alguém venha a dançar através de uma explicação exaustiva do ritmo? Como poderemos esperar que alguém se movimente ( a dança ), de forma harmónica e articulada, se o mantemos sentado, a ouvir a definição científica do ritmo que lhe propomos para dançar? E será possível descrever, explicar, definir… um ritmo?

Não há cultura sem música. Nem dança! Da mesma forma que música e dança não prescindem, não funcionam, não existem…literalmente, sem a EMOÇÃO.
Dançar sem emoção é…caminhar no mesmo sítio!
A emoção é uma mobilização energética, que o cérebro reconhece e o corpo acusa e valida. Ao estremeção!
A emoção é o que incendeia, o que confere significado, o que sinaliza o sentido e deixa passar como marca.
Não é possível falarmos de dança, de música…, em sentido literal ou metafórico, sem considerar a emoção.
É exatamente o mesmo com a APRENDIZAGEM !
E, para a experimentar, não podemos prescindir do nosso cérebro. Mas também do nosso corpo!
E, para que não subsistam dúvidas, a EMOÇÃO é igualmente importante por ser percussora de outros dois fatores incontornáveis para a sobrevivência… para a APRENDIZAGEM !

já lá vamos…

CURIOSIDADE

É o mecanismo cerebral capaz de detetar o DIFERENTE!
É com ele que se foca o que sobressai. E… quando o que sobressai é carregado de significado para a sobrevivência… aprende-se !

A aquisição de conhecimento…, o chegar a conhecer aquilo que se busca com a aprendizagem…serve-se exatamente dos mesmos substratos neuronais que as condutas que nos levam à busca de água, alimentos ou sexualidade.
Os circuitos cerebrais que se ativam perante certos estímulos que incendeiam a CURIOSIDADE são aqueles que antecipam e promovem a recompensa ou o prazer.

CURIOSIDADE tem a ver, diretamente, com o que salta do contexto.
Com o que se distingue! O que arrasa com a monotonia do contexto e o que quebra com a regularidade.

E não são CONTEÚDOS…, blocos de matéria…, definições…, conceitos… que nos puxam pela CURIOSIDADE.
É a forma como criamos descontinuidades, como apontamos ruturas, como apresentamos nacos de realidade… que faz emergir o distinto do que é percecionado como contexto.

O que nos faz virar a cabeça, independentemente e muito antes de lhe atribuirmos qualquer valor… é o efeito surpresa… aquilo que cria novidade… o que sobressai do que é entendido como natural e esperado.

A CURIOSIDADE é o movimentador de foco!
É o que nos faz desviar o olhar do professor / formador, supostamente a fonte daquilo que nos faz falta… para uma mosca que acaba de lhe pousar no cabelo e de onde, com toda a certeza… nada virá de proveitoso.

 

ATENÇÃO

Se, com a CURIOSIDADE, acionamos o foco… está automaticamente ligada a ATENÇÃO !

É um estado natural que se segue… naturalmente… à curiosidade. Sem necessidade de pedido!
Quando um formador / professor pede a atenção de um aprendente, trocou a palavra. Não está a pedir atenção porque a ATENÇÃO…não se prescreve…, nem se pede. O que está a avisar é para se porem todos em sentido!

Formador que não capta a atenção é como um barbudo… sem barba !
E quando se ouve dizer que os formandos / alunos não prestam atenção… é importante precisarmos a expressão sob pena de estarmos a incorrer numa incorreção. Eles prestam atenção! E de que maneira!
O azar é que o foco de atenção deles, na maior parte das vezes, não é em quem era suposto ter-lhes despertado a dita… por um conceção errada da ATENÇÃO:

- pensarmos ou termos a ideia pré concebida de que a ATENÇÃO se prescreve, reclama, solicita ou exige! Um erro crasso!


A ATENÇÃO… repete-se para que fique… é o estado natural que se segue à CURIOSIDADE !

Uma pergunta final, para que possamos, TODOS, olhar para as situações, pelo menos, com uma leitura alternativa e não monolítica:

- quando um professor / formador diz que teve azar com aqueles formandos / alunos… não terão sido eles que tiveram azar com aquele professor / formador?

 

LIGAÇÃO

A___PRENDER… não é prender !
Esta frase…lida com facilidade, encerra algo bem mais profundo e que importa descascar, sem preconceito e analisar do ponto de vista do que queremos para a A__PRENDIZAGEM!

A aprendizagem, o conhecimento são indissociáveis da ligação entre as coisas. Entre todas as coisas!
Se não formos capazes de detetar o que aprendemos pelo seu capital de ligação a tudo quanto nos rodeia não estamos a aprender mas a… prender !

De que nos serve tudo quanto nos colocam à frente, a reboque de um programa, de uns conteúdos e de uns conceitos, mesmo com aquela seriedade e contundência com que são servidos… “ ou dominas, ou não tens validação como elemento reconhecido para evoluir na vida “ se não os usarmos como repertório de leitura, análise e intervenção no nosso dia a dia?

De que nos servem os integrais, as fórmulas químicas, as concordâncias frásicas, os catetos e os ângulos… se não formos capazes de os ver, a todos e a cada um, na vida …, reconhecendo-os como pontos de apoio para colocarmos as alavancas que mudam o mundo… a começar pelo nosso?

Seria interessante que a aprendizagem e sobretudo as diligências, formais e não formais que gostam de assumir o termo, tivessem como caraterística central dos itinerários que escolhem e traçam as LIGAÇÕES! Logo no arranque, assentarem que a aprendizagem começa a partir daquilo que as pessoas já sabem, já conhecem, já viram à sua volta.
Depois, assumirem essa preocupação, coragem e orientação para considerarem a aprendizagem garantida apenas e só quando as pessoas alvo do processo forem capazes de verem, identificarem e extrapolarem as abstrações para a vida concreta e realidade ( quando vai para a praia há alguma hipótese de se cruzar com um integral?).
Por último promoverem, incentivarem e congratularem-se por terem incutido nas pessoas alvo do processo essa obsessão por fazerem pontes entre tudo, cimentando-as com a bagagem que transportam.

POTENCIAÇÃO / MIGRAÇÃO

No processo de aprendizagem há um patamar que tem sido descurado e que importa trazer para a primeira fila das preocupações de instituições, educadores e todos os agentes implicados, direta ou indiretamente, no processo. Falo da componente POTENCIAÇÃO / MIGRAÇÃO.
Trata-se de um toque de transversalidade que garante a efetividade de uma qualquer aprendizagem.

Pegando na fase 4 do processo de aprendizagem ( quadro anterior ), a LIGAÇÃO, aqui mais não se pede, mais não se fomenta do que esticar, distender, alargar a ideia para áreas não afins.
Ou seja, pretende-se com isto frisar que a solidez de uma aprendizagem atinge o seu zénite quando o sujeito alvo do processo for capaz de utilizar, de forma natural e fundamentada, conceitos, operações, raciocínios, aplicativos e todo o tipo de bagagem própria de uma área específica…numa outra qualquer área do saber que, à primeira vista, nada tenha a ver com a primeira.
Só poderemos ter a sensação e convicção de dominar o conceito de inflação…, por exemplo, se formos capazes de o explicar e descodificar a partir da relação peso vs. atração ( mais peso / menos poder de atração ).

Esta dimensão de transversalidade entre áreas não afins, incontornável num processo de aprendizagem consistente, mais não faz do que alinhar pela nova ordem trazida pela pós modernidade e responder à chamada das orientações da investigação científica que pretendem inverter uma tendência que se traduziu, durante anos demais, na compartimentação do saber e do conhecimento ( disciplinas / cadeiras / áreas de especialização / … ), substituindo-a por uma outra, bem mais representativa da realidade e da vivência e que se traduz na perceção e pensamento em formato matricial.

Esta nova abordagem reclama diferentes formas de promover as aprendizagens e, obrigatoriamente, novas formas de avaliação. Para que seja, de facto, possível, apurar o que se liga ( A___PRENDE ) e não o que se enfarda ou carrega sem significado ( o que se prende ).

 

SÍNTESE FINAL


O modelo que acaba de ser apresentado não pretende nada que vá além do que apresenta.
Usa a simplicidade, procura sinalizar as esquinas da aprendizagem centrando-se no centro que a suscita, que a deve enformar, que a determina e que deve pautar a sua efetiva avaliação:
- o aprendente!

Se atentarmos na figura do pentágono, que representa o modelo, podemos distinguir dois grandes blocos:

i. a base, constituída pelos três fatores incontornáveis, verdadeiros motores da aprendizagem e que são a EMOÇÃO, a CURIOSIDADE e a ATENÇÃO.
Qualquer um destes fatores são condições que, quem gere as aprendizagens, não pode estar à espera que elas estejam disponíveis para serem jogadas. Muito menos são para serem solicitadas ou, muito menos ainda, prescritas. São condições para serem mobilizadas!

ii. o topo, constituído pelas duas dinâmicas mestras da aprendizagem e que são a LIGAÇÃO e a POTENCIAÇÃO / MIGRAÇÃO. Trata-se de abordagens intencionais no sentido de, justamente, conferir sentido ao que se aprende…através da sua identificação na vida, nas diversas áreas, num movimento de síntese de cariz matricial, afinal o formato da vida e do que a vida nos exige e coloca como desafios.

Claro que encarar a aprendizagem nesta perspetiva é um desafio. Sobretudo para formadores / professores.
Mas é, uma vez aceite tal desafio, uma via para fazermos da aprendizagem uma condição de vida que não dispensa o desenvolvimento e a autonomia do aprendente, pilares da evolução, progresso e inovação dos mundos. O de cada pessoa, de cada comunidade e do coletivo global onde pertencemos como partes integrantes e que, como elementos de um sistema, determinamos o seu resultado.