Cronologia de Apropriação Personalizada - João Leite

joaoleite.JPGCRONOLOGIA DE APROPRIAÇÃO PERSONALIZADA

João Leite (Psicólogo) - Abril de 2020

 

 

 

 

 

 

Porquê ? A questão da APRENDIZAGEM é central.
E não só na escola ou perante um qualquer cenário de imposição, obrigação, dever ou necessidade. Trata-se de uma condição de vida !
É verdade que estamos, não só, naturalmente preparados para APRENDER, como ainda contamos com um verdadeiro centro de operações de alto nível de rendimento que não faz nada melhor do que isso: o cérebro !

Toda a nossa caminhada na vida é um processo de aprendizagem. Em todos os sentidos. De tudo.
E aprender é ligar. Com significado…, a palavra – chave do processo.
Ora, significar quer diz, corresponder, encontrar pontos de contacto, zonas de afinidade. E a aprendizagem assenta, precisamente, nisto.
Poderemos dizer que aprender é fazer corresponder o que não conhecemos nem sabemos, o novo, ao que já conhecemos e sabemos. Portanto, um câmbio. Ou, para ser mais rigoroso e, ao mesmo tempo, explicitar uma dimensão incontornável do processo, um INTERCÂMBIO !..., por ser feito em contexto de interação. Sempre !

Acontece, contudo e não poucas vezes, que apesar de se tratar de um processo natural para o qual nascemos preparados e munidos com um motor de busca que faz o seu trabalho na perfeição, ouvirmos e darmos de frente com um número considerável de casos com a etiqueta…. DIFICULDADES DE APRENDIZGEM.
E isto acontece, sobretudo, em contextos formais de… APRENDIZAGEM.
Então, das duas…, uma:

i. ou as dificuldades identificadas nada têm a ver com APRENDIZAGEM e refletem problemas num outro domínio diferente a que, por conveniência interesse, pressão ou confusão, se coloca o nome de APRENDIZAGEM;
ii. ou, a serem reais e fundamentadas tais dificuldades, o seu peso é já suficientemente significativo e justifica que algo se faça para que sejam revertidas e reduzidas à sua insignificância.

Foi a pensar nestes desencontros que, genericamente, recebem a designação de DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM, sejam elas reais, específicas ou a resultante de um conjunto de forças diferentes, vindas dos mais diversos quadrantes, que surgiu a oportunidade para este roteiro.
É composto por um ícone, um relógio, que permite uma apreensão intuitiva e analógica do percurso que preconizo para uma efetiva APRENDIZAGEM.
Tendo como base concetual o relógio, é possível retirar os seguintes princípios:

i. estão definidas 12 etapas ( tal como as horas );
ii. há um sentido determinado para funcionar ( sentido dos ponteiros do relógio );
iii. refere-se as 12 paragens, não o que deve fazer-se nessas paragens nem o tempo que deve gastar-se, pela simples razão que isso será ditado pelos diferentes tipos de pessoas com quem interagimos;
iv. as 12 etapas são sequenciais, tal como as horas;
v. constitui um guião único a ser seguido por quem aprende e por quem promove as aprendizagens, tal como o relógio é referência para todos.

 

Como ? As etapas estão definidas em modo sequencial, permitindo uma caminhada por integração e com sentido. Aliás, todo o processo aqui desenhado não prescinde, em momento algum, desse lubrificante tão potente:
- o sentido para quem aprende !

Se A___PRENDER é ligar, o novo ao que já sabemos e conhecemos, tal ligação só se faz quando as coisas fazem sentido. E quando assim é, reduz-se o peso da memória ao nível da sua participação no processo, remetendo-a para o lugar que lhe pertence, jamais como elemento central.
Não é dúvida para ninguém que a aprendizagem é um processo que se opera e verifica em quem aprende. É algo que não se pode fazer de fora. Nem a ninguém !
A única coisa que está ao nosso alcance, no papel de promotores de aprendizagens, é produzir sentidos para quem aprende ! Gerar sentidos para que o aprendente estabeleça as ligações. E, claro, verificar evidências dessa aprendizagem.

Quando falo em ligar com sentido é numa dupla perspetiva. A manter em todo o processo.
É fundamental que este movimento de ligação, com sentido, seja projetado para trás, na busca e identificação do que o aprendente já sabe e reconhece, tudo quanto já viu e fez e é semelhante, correspondente, ao que está em cima da mesa para aprender…, como projetado para diante, em termos do que existe na vida e que resulta, beneficia e é apoiado pelo que está a ser, neste momento, aprendido.

Por último e antes de passarmos ao desembrulhar das etapas, ou seja, antes de passarmos pelas 12 horas do relógio, importa relembrar um aspeto que, de tão óbvio, é, tantas vezes, descurado. É que só pode aspirar a exercer um papel de excelência na promoção de aprendizagens quem é tecnicamente consistente, fez uma apropriação efetiva e inteligente da área de especialidade onde intervém e é competente. A consequência de tal postulado é clara e, igualmente, dolorosa de simples:
- os que não respondem aos critérios referidos…, poderão sempre fazer carreira a ensinar !

suporte: As páginas que se seguem vão ocupar-se da descrição do que cabe fazer em cada degrau, em cada etapa, a cada hora deste relógio.
Qual é foco e qual o gancho onde podemos enlaçar o que queremos que seja aprendido. Com sentido. Para trás e para diante.
E a propósito das zonas nucleares específicas de cada etapa, a ideia é descrever e detalhar os pontos cardeais que orientem a caminhada e que possam até, como exemplos ou para sustentar as abordagens, referir algumas técnicas ou questões concetuais.
Estão todos convidados para iniciar a caminhada.
Vamos fazê-la aos poucos, por etapas, em ritmo moderado mas de forma consistente e precisa.
Com precisão de um relógio !

 

HORA 0

Qual é a aposta ? Qual o móbil da aprendizagem ?
Normalmente o que salta de imediato é um conceito, uma teoria, uma área temática…, enfim, algo que vai permitir a caminhada e trouxe até aqui, a zona de partida, aqueles que a vão fazer.
Neste momento de arranque, é natural que as coisas se coloquem na sua versão mais conhecida, mais à mão e que melhor sustenta as designações:
- assunto / tema / área.

Não é, por si só, nada de grave. Da mesma maneira que não é a marca de um autocarro que, por si só, determina, condiciona ou compromete o destino para onde nos vai levar.
O professor / formador, a partir deste material de arranque, tem obrigação de o traduzir em ação concreta, definindo o que o aprendente deverá ser capaz de fazer com aquilo e qual a vantagem objetiva a retirar de tal viagem. Importa, aqui, sublinhar a EXTERIORIDADE, ainda não UTILIDADE em pleno… como um dos elementos fulcrais, o que permite ao aprendente antever o retorno do investimento e… correr para o autocarro.
O professor / formador, tal como o condutor do autocarro, precisa de, não só conduzir com perícia de maneira a proporcionar uma viagem cómoda, divertida e atrativa a quem viaja, como de ter uma representação clara, objetiva, precisa, atualizada, integrada e sequencial de todo o percurso a realizar e das respetivas paragens ou zonas de abastecimento. Seja de combustível, seja de entrada de novos passageiros.

Como se pode, facilmente, identificar a partir da analogia utilizada, é exigido ao gestor do processo ( motorista / professor – formador ) o domínio de competências técnicas específicas ( área de especialidade ), como o domínio de um naipe de competências, poderemos dar-lhes o nome de transversais, que vão desde o estratégico ao relacional, e que se prendem com a visão global do percurso, os ganhos a conseguir, assim como os pontos de contacto com outras carreiras, outros percursos, outras viagens.
O processo de apropriação de um percurso específico, por mais eficaz que se revele, de pouco servirá se não permitir uma perceção de uma dimensão da rede onde está inserido, a malha de ligação global que, em interligação a partir de pontos inevitáveis de contacto, nos garanta a descoberta e usufruto de todo o território coberto que podemos descobrir e utilizar como espaço de vida e de desenvolvimento.

Para podermos acompanhar esta epopeia, vamos servirmo-nos de um exemplo.
O arranque, por hipótese, é a INFLAÇÃO ! O tal tema, assunto ou área.
O professor / formador, competente, precisa de definir, desde logo, o PORQUÊ de tal opção, a razão de ser, a oportunidade, as vantagens para se propor tal percurso a quem está na paragem…, à espera do autocarro. Como se fosse a identificação.
Precisa de dominar muito bem o que é a INFLAÇÃO, para que serve e que utilidade encerra, assim como encontrar formas de atrair passageiros para a viagem. Até porque tais passageiros, de uma maneira geral, jamais sentiram falta da inflação nas suas vidas…, ou assim pensam, porque ninguém sente falta do que não sabe existir, mesmo que exista.
Também precisa, aspeto crucial, de definir com clareza e objetividade, como vai determinar, em concreto, a partir de que tipo de comportamentos e em que situações, pode dar a viagem por terminada e deixar sair os passageiros…, com a garantia de que não precisarão mais de fazer tal percurso.

 


HORA 1

Este é o momento do exercício das ligações para trás.
Ou seja, de levar o aprendente a verificar coisas que lhe são familiares, conhecidas e, através delas, chegar à conclusão de que já conhece o que pensava não conhecer ou, dito de outra forma, descobrir o que já lhe aconteceu, já viveu e reconhece… como evidências do que ainda não domina por não ter, até àquele momento, disponível o conceito que lhes permite uma leitura diferente, mais abrangente, mais técnica.
É aqui, nesta fase, simultaneamente de sedução, por assentar no que já conhece, e de instigação, por apontar para novidades, que o processo começa verdadeiramente, agora já com todos os atores em viagem…, aprendente e professor / formador e em registo de interação direta.
A APRENDIZAGEM, ao contrário do que é comumente aceite e referido, não começa do zero ! Começa do “ SIM “ !
Este “ SIM “ assenta na condição tão simples, tão à mão, de apresentar situações que façam parte das vivências e experiências, que façam parte do portefólio de vida do aprendente, justamente para arrancar dele o sinal de reconhecimento e consequente envolvimento ( SIM ! ) que o mobiliza e puxa para a caminhada.
É bastante mais difícil e desanimador começarmos uma caminhada quando desconhecemos o cenário circundante do que quando detetamos familiaridade ou indícios de proximidade.

Continuando com o exemplo que adotamos como pretexto de análise, a INFLAÇÃO, a ideia é desafiar o aprendente a revisitar o seu portefólio de vida e identificar determinadas situações, previamente identificadas e selecionadas pelo professor / formador, que reflitam ( isto, para já só sabe o professor / formador… ) um padrão de funcionamento como o que se pretende trabalhar.
No fundo, trata-se de fazer apelo às COMPETÊNCIAS DE LIGAÇÃO ESTRUTURAL ( CLE ) do aprendente. Coisas que ele já fez, viveu, experimentou e que estão na linha de continuidade das novas competências que se pretendem instalar.
Conseguindo fazer isto, garantimos várias coisas ao mesmo tempo.
Um contexto de proximidade, levar o aprendente a reconhecer e a envolver-se, até porque o que disser estará sempre certo e ajustado, é da sua experiência que fala…, e ainda gera entusiasmo e curiosidade, portanto, uma calda mágica para se iniciar o processo de aprendizagem… COM O APRENDENTE !

Quando eram crianças, no dia do vosso aniversário em que estão sempre à espera de uma prenda especial, por que muito anseiam…., por exemplo, uma bola de futebol… e chega um familiar e vos entrega uma… como é que ficam ? Era mesmo aquilo que tanto queriam…, já estão a imaginar mostrar a bola aos amigos e jogar com eles…
Passado algum tempo, chega um outro familiar, ainda vocês estão maravilhados com a bola que receberam…, e traz outra bola de futebol…, porque sabiam da vossa paixão. Como é que ficam ? Notam alguma diferença na reação ? O que aconteceu ?
Sentem-se mais ou menos entusiasmados ? Por que razão ? A segunda bola é tão boa como a primeira. Agora até têm duas ! O que se passa convosco ?
E se, já mais para a noite, um outro familiar traz outra bola de futebol ?...
Que conclusão poderemos tirar desta situação, seja com bolas ou com outro produto qualquer ?

… … ( ao gerar a participação do aprendente, cabe ao professor / formador retirar o relevante, ou seja, o que é representativo da INFLAÇÂO… para transportar para outras etapas da APRENDIZAGEM ).

 


HORA 2

Este é o momento de saltar da experiência e vivência do aprendente para a vida, para a rua, para a realidade. Que ele também conhece, a espaços, embora não domine tão bem.
Com o balanço do sucesso obtido no momento anterior, já com o aprendente por perto e interessado, é altura de pegar no padrão verificado com as bolas de futebol e apresentar alguns exemplos vivos… da vida.
Situações onde, ainda dentro de um perímetro acessível ao aprendente, pode ser com produtos de consumo, bens, serviços…, se verifique algo parecido ou que passe a ser percebido como parecido pelo aprendente.
Se estas situações, exemplos, forem bem escolhidos e apresentados e desafiarmos o aprendente a identificar o padrão, a chegar lá… vamos ouvir o clic da APRENDIZAGEM ( Ah !!!!... ), esse som mágico de quem conseguiu uma ligação entre ocorrências que estão mesmo à frente dos seus olhos e de que ele ainda não se tinha dado conta…, daquela forma, com aquela perspetiva.
É aqui, nesta fase, que trazemos uma nova lente de leitura ao aprendente e que ele, imediatamente, dela se apodera, com prazer.
Passa a ver o que conhece, a vida e a realidade, com outras cores, neste caso, começa a ver a INFLAÇÃO em tanta coisa, por todo o lado.
E começa, por iniciativa própria e sem nos dizer nada, é o entusiasmo a trabalhar perante um salto sentido por dentro, a extrapolar, a verificar o fenómeno noutros contextos, noutras direções, em muitos outros exemplos.
Mas…, ainda não será cedo ? Não poderá cometer erros, fazer asneiras ?...
Pois bem ! Muito bem, até !
A asneira e o erro são patamares da APRENDIZAGEM. Como o tropeçar. Só acontece a quem anda, quem se põe em marcha. E é disso que se trata ! Colocar o aprendente em marcha !

Neste momento e perante o movimento do aprendente, a generalizar, a identificar situações e a detetar aplicações…, umas vezes bem, outras, nem tanto…, é fundamental a intervenção do professor / formador, em registo de regulação, orientada para duas frentes importantes:

i. agarrar e reforçar o entusiasmo do aprendente, fazendo dele a corda do relógio;
ii. afinar o raciocínio a partir das respostas que vão surgindo.

É a altura para acertar, para afinar, para exercitar a consistência de maneira a que o aprendente se sinta mais confiante e ousado. Sempre com um sentido que importa manter…, das respostas para os raciocínios.
É também neste momento, perante o que vem sendo feito, que se assiste a uma rotação do processo, a rotação da PRENDIZAGEM, e que se verifica na passagem do protagonismo para o aprendente. É ele quem pergunta, coloca dúvidas, discute raciocínios, interpela o professor / formador, manifestando um investimento que funciona em aceleração, podendo mesmo chegar a expressões por vezes desvalorizadas e, nem sempre entendidas como indicadores desse mesmo investimento, como “ já não estou a perceber nada / mau ! / isto está cada vez pior “.

Chegou o momento da cozedura.
O aprendente está em movimento, já vê diferente, já olha para a realidade vendo nela o que já via mas, agora, de uma forma ampliada, incorporando o novo, e só precisa de critérios, de suportes consistentes para se ver, a ele, também diferente e em desenvolvimento. É a porta de entrada do passo seguinte…

 


HORA 3

Este, é o passo que se segue.
Depois de o aprendente ter começado o movimento, depois de notar em si uma nova lente de leitura da realidade e da vida e, por isso mesmo, se prestar a lê-las de uma forma diferente, mas também verificar que, nem sempre, a leitura é a correta…, está aberto, objetivamente interessado, ávido para dominar os princípios e as bases para as novas leituras mas, sustentadas.
Então, o professor / formador tem a sua oportunidade de se aliar a este estado num papel de estruturação, de organização.
Pela esquematização, pela troca desafiante e apelativa, pela confrontação de situações…, agora tendo por base o esquema, o padrão, as variáveis em presença e a forma como atuam…, vai puxando o aprendente para ler…, com a lente calibrada.

No exemplo que nos tem servido, a INFLAÇÃO, é chegado o momento para destacarmos que os alicerces do conceito são o VALOR, a QUANTIDADE e que estas variáveis se comportam de costas uma para a outra. O VALOR diminui quando a QUANTIDADE aumenta, portanto, em sentido contrário.
Sistematizado o padrão, definidas operacionalmente as variáveis em presença, é altura de procurar e despistar o fenómeno à luz…, à nova luz.
Indo buscar todos os exemplos, situações e casos, desde a bola de futebol até às situações que o aprendente, por sua iniciativa, foi identificando como ninhos de INFLAÇÃO, as que estavam corretas e as que não. Há que as devolver, num retorno agora crítico e amparado pelo esquema fornecido e pelo padrão em presença, para que seja o aprendente a voltar a avaliá-las e validá-las.

Como, nesta fase, a ideia é o treino e consolidação do raciocínio que sustentará as futuras análises e consequentes respostas, é importante trabalhar a APRENDIZAGEM num circuito que possa ser entendível e facilmente replicável, de uma maneira intuitiva, direta e automática.
Então, o itinerário terá sempre as seguintes esquinas:

i. descrição da situação em análise;
ii. identificação das variáveis em presença / o que acontece;
iii. seleção do padrão;
iv. comparação com o esquema de referência trabalhado;
v. verificação das semelhanças / diferenças;
vi. validação da presença / ausência do fenómeno.

Como pode ser facilmente percebido, trata-se de um processo de refreamento momentâneo do entusiasmo importado das etapas anteriores, uma vez que estamos a limpar a lente. Tal e qual como quando estamos prestes a fazer um maravilhoso mergulho em alto mar, para uma viagem magnífica às profundezas do que não conhecemos, e nos sentamos, calmamente, a inspecionar e testar o equipamento que, dali a pouco, nos irá permitir fazer o tão ansiado mergulho. Em segurança e com confiança.

A conclusão desta fase dá-se com a exposição a situações, umas lançadas pelo aprendente, outras pelo professor / formador, estas previamente preparadas e suficientemente vivas, próximas e fortes, para que sejam agarradas e passadas a pente fino pela… INFLAÇÃO !

 


HORA 4

Abre-se a porta, neste preciso momento, à UTILIDADE !
Agora que o aprendente se apropriou do conceito, já o vê na rua, já sabe como opera e se faz sentir, ainda que em circuitos restritos, agora que sente novamente o entusiasmo pelo alargamento do seu campo de visão e análise da vida e da realidade, é de esperar que, de forma explícita ou encoberta, se ilumine a questão sacramental, nem sempre bem vinda, nem sempre puxada, nem sempre utilizada como trampolim potente para os saltos da APRENDIZAGEM.
E a questão, carregada de filhos e parentes próximos é:

- PARA QUE É QUE ISTO SERVE ?
Como seria a vida sem isto ? E com isto ?
Que vantagens é que eu retiro ao dominar tal conceito ?

É normalmente nesta fase que se distingue, nitidamente, o professor / formador enchouriçado do competente ! Eu explico.
Sempre foi referido como falha grave entrar – se com o conceito na definição desse conceito. Percebe-se, recomenda-se, exige-se !
Sermos capazes de servir, entregar, proporcionar um conceito a outra pessoa, sobretudo quando tal pessoa está num processo de apropriação, implica uma amplitude de leitura abrangente. Ou seja, implica importar vida no conceito e não chutar o conceito na direção da vida.
Não nos podemos esquecer que estamos na fase em que a ligação em destaque é a do conceito, neste caso INFLAÇÃO, com a sua UTILIDADE.
É a fase em que contam, e de que maneira, os exemplos. Mas também, é bom ter presente, os CONTRA EXEMPLOS ! Aquelas situações em que, apesar de eventuais semelhanças, apesar de tudo fazer prever, apesar de induzirem em engano…, não são, de todo, exemplos. Antes pelo contrário, muitas vezes.
Neste espaço é de toda a relevância sublinhar, focar, explicitar o que há a retirar da utilização do conceito. O que beneficiamos, todos e a que nível, do seu conhecimento e da sua utilização. Sempre em banda larga, em leque aberto, em extensão e não em movimento centrípeto, de aprofundamento técnico do conceito.
Não é especialmente importante, aqui, a aposta nos requintes da definição. Nem das referências teóricas ou das citações. Também não é ainda a época das referências a autores e evoluções concetuais. Tudo isto, irá surgir no momento em que o terreno ( aprendente ) estará pronto para tal semente, que é importante. Mas a questão da importância, aqui, cede o lugar à oportunidade…, sob pena de se afogar antes de entrar na água.

Nesta fase, o professor / formador competente vai apostar num trajeto de importação. Da realidade, das mais próximas às menos suspeitas, para o conceito e, deste, para o aprendente.
Um “ enchouriçado “, a expressão pretende, tão só, sinalizar e alertar para eventuais desvios…, tende a entrar em pormenores de especificação, em diferentes definições, em fórmulas, variações, ilustrações e exposições teóricas. Não é o momento. E, admito fortemente, que não é aqui nem vai chegar a ser.

Como nota final, quero vincar que o final desta fase merece ser selado com situações reais, da realidade social, política, desportiva…, enfim, das várias dimensões da vida que sintetizem e constituam quadros marcantes da utilização do conceito em questão. Vamos levar o aprendente ver INFLAÇÃO em tudo !

 

HORA 5

Está, agora sim, na hora de fazermos uma viagem ao pedigree do conceito.
Onde foi inicialmente gerado, quais as razões que levaram à sua invenção e conceção, quem é o pai, a mãe, a família mais próxima.
E a época em que surgiu, não poucas vezes, o empurrão que está por detrás do aparecimento das novidades.

O ritmo e o balanceamento proporcionado pelas histórias ( …também pelas estórias… ) são embaladores produtivo do cérebro, lubrificando-o com emoção.
A versão mais intelectual das histórias ( …também das estórias… )…, a METÁFORA, diz-se que toma o cérebro de assalto ! Então, temos aqui um transporte seguro, eficaz, adequado e altamente produtivo para esta “ hora do dia “.
É, pois, a hora do EFEITO VIAGEM, técnica andragógica que utiliza o efeito pacífico e transcendente das histórias, também dos contos e narrativas com embalo, e permitem apropriações fortes e com significado. Húmidas !
Agora, sim ! Tem cabimento a entrada da área – mãe onde surgiu o conceito, o que lhe deu origem, como era a realidade que permitiu o seu surgimento, os autores que o fizeram nascer, como foi acolhida e quais as peripécias por que passou até à maioridade.
Mas também, com especial ênfase, o que veio resolver ! Ou alertar ! Ou modificar !

A preocupação, aqui, é uma incursão, naturalmente desafiante, sempre de mão dada com a vida e com a realidade, à especialidade, à zona da ciência ou temática geral onde o conceito pertence, por nascimento.
Importa focar situações, mudanças, alterações…, fruto da presença e atuação do conceito.
Como importa avançar para especificações concetuais que permitam uma sustentação consistente.
Se houver princípios, fórmulas, exceções… é este o momento para surgirem. Mas com “ molho “ e sempre num registo de trabalho partilhado. Com o aprendente, não feito ao aprendente !

Também as referências e, sobretudo, cálculos, aplicações.
Sempre a partir de casos concretos, situações reais, experiências notórias. E notáveis !


HORA 6

Na linha de continuidade da anterior, caso como extensão natural dela, vamos para os exemplos vivos. Os viveiros da inflação !
O convite é para analisar jornais, discursos, frases, situações conhecidas e reais, exemplos.
Uma boa ocasião para pegarmos em CASOS concretos, onde o conceito seja visível. No seu formato habitual…, mas também na sua área de impacte.

São convidados especiais deste cenário situações recentes e com grande visibilidade. Em diversas áreas.
O recurso às fontes e meios disponíveis, dos mais neutros, como jornais, TV, revistas, notícias…, aos mais técnicos ( revistas da especialidade, relatórios, … ) é uma via altamente produtiva.
A apresentação, análise, discussão conjunta e estudo de CASOS concretos, próximos ou recuperados pelo impacte que tiveram, revelam-se marcadores de excelência para este novo mapa do mundo. Numa primeira fase…, do mundo do aprendente. Numa fase posterior, lá mais para a frente, do mundo onde o aprendente vai surgir como cidadão.


HORA 7

Entramos na oficina da competência. Do fazer. Do conhecer com as mãos !
Com a “ forma barrada “, conhecendo a receita e tendo uma clara representação do produto acabado…, há que fazer o bolo !

Como se aplica ? Como se faz ? Como se calcula ?
Que valores preciso de movimentar ? Que fórmula ? Que procedimentos ?
Como aparece e como pode ser apresentada e, facilmente explicada ?
Estes disparadores são os elementos – chave desta fase.
A fase da ação !

Começa o jogo. A aplicação. A fase do operar. A busca de resultados. Chegar ao produto final.
É agora que, mobilizando toda a bagagem, traduzindo todo o conhecimento e articulando toda a informação que foram sendo, cumulativamente, organizados e sobrepostos como lascas… chegaremos à cebola.
Dão entrada os exercícios, os CASOS, as situações, das mais simples para as mais complexas, onde se passa à ação, ao cálculo, à validação.
Tudo isto, toda esta operacionalidade, o fazer e aplicar, sempre amparado, subordinado e mediado pela presença e constante refinação do raciocínio. Da analise à validação.

Fundamental, neste momento, estar atento a possíveis desvios que, iludindo pela destreza de execução, podem constituir obstáculo a uma APRENDIZAGEM efetiva. Sendo o foco a aplicação, a meta é a aplicação fundamentada e a operação consistente, sob pena de podermos cair na reprodução automática.
O trabalho essencial do professor / formador consiste no desafio para a ação mas, não menos importante, no questionamento constante dessa ação para que, numa combinação estreita e proveitosa se chegue à ação perfeita…, ou PERFEIÇÃO !

A fórmula, nesta fase é:

- AÇÃO + QUESTIONAMENTO =


A APRENDIZAGEM não se pode reduzir à mera produção de resultados. Ficar por aqui seria o equivalente a confundir o gesto do espreguiçar com uma coreografia.
Importa o fazer, sem qualquer dúvida, mas ligado ao saber porque se faz e ao como se faz. E desfaz, também.
O resultado é a resposta. E estas mudam rapidamente.
As mudanças só são desequilibradoras, só se revelam instáveis e, mesmo, ameaçadoras quando não assentes em raciocínios.
O raciocínio é a substância da resposta. O seu código de acesso. Mas também a parte submersa, nem sempre puxada, nem sempre agilizada…, levando à tentação perversa de o dispensar, ficando pela aparência.
A APRENDIZAGEM dá-se na conjugação perfeita e virtuosa de respostas e raciocínios, funcionando estes como o combustível daquelas, caso contrário, só entrará em movimento… por empurrão !

 

HORA 8

Fase de exploração, de especialização, de aprofundamento, de análise fina… tudo dentro da área – mãe, da disciplina ou espaço temático a que pertence, por nascimento, o conceito em análise.

O espaço para tomar contacto, verificar e analisar tudo o que se faz e produz, com impacto, com o conceito. Quais as suas repercussões, aplicações e lições. Tudo dentro da zona temática onde foi gerado.

A ideia, nesta fase, é a do alargamento e enriquecimento abrangente.
O caminho é de expansão. Em todos os sentidos, com todos os atalhos e variações conhecidas.
Trata-se de tomar contacto e conhecimento da presença e interferência do conceito nas mais diversas frentes a partir de documentos, relatórios, decisões, políticas, programas.
É o treino de músculo do conceito, sempre no seu contexto de nascimento e crescimento.
Com toda a bagagem na mão, decorrente do percurso já feito nas fases anteriores, é chegada a altura para espalhar, projetar, subir de nível e apreciar a centralidade do conceito no panorama global…, na área de residência habitual.

Agora, depois de conhecer, dominar e ser capaz de utilizar, abre-se a porta para o pensamento estratégico. Como e onde se situa…, o que acarreta e gera…, que tipo de implicações, diretas e indiretas provoca. Na ciência como na vida.
Quais as situações, momentos da história, períodos e circunstâncias em que floresceu, murchou, foi determinante.

É, pois, a altura de um contacto informado, competente e sustentado com o conceito a partir da sua existência e influência, numa visão ampla, global, estratégica.

 

HORA 9

Exatamente o registo da anterior. De exploração, de especialização, de aprofundamento, de análise fina…, mas agora em áreas que não o seu contexto de nascimento.


Para onde migrou o conceito ? Para que disciplinas, áreas ou frentes temáticas ?
Quais as áreas, não afins, que importaram o conceito e o aplicaram dentro de portas ? Para onde se transferiu, desde a linguagem comum à linguagem técnica, embora aqui, com significados específicos mas sem perder a identidade que carrega ?

Onde está presente e com que sentidos, fora do berço ? Do seu berço de nascimento ?
Procura-se a transversalidade do conceito.
As suas diversas aplicações e contributos nas áreas não afins.
O que significa inflação de brasileiros no plantel de futebol da equipa X ? O que quer dizer a expressão “ as notas dos alunos foram inflacionadas “ ?
Com que propriedades, propósitos e vantagens as diversas áreas não afins incorporaram e adotaram o conceito e o que lhes trouxe de novo tal adoção ?


HORA 10

A que deu origem, de uma forma geral, o aparecimento e aplicação do conceito ?
O que provocou ? Que impactes ? O que ajudou a criar ou a gerar ?
Que avanços, retrocessos, possibilidades, aberturas proporcionou ? E em que setores da vida ?
Para que foi determinante ? E para que serviu ou contribuiu, nas mais variadas áreas e na vida do cidadão comum ?
Que saltos deu o mundo ? O que ficou diferente ? O que foi possível fazer que dantes não se fazia ?

Todas estas interrogações não são mais do que guiões para uma exploração alargada do conceito que temos pela frente e que queremos seja apropriação do aprendente.
E tal apropriação só atingirá o seu nível de brilho quando estiver em condições de ostentar consistência, robustez, confiança e agilidade.
A grande aposta é levar o aprendente a identificar, reconhecer e caraterizar o conceito já não só na sua pátria, como em todos os lugares onde surja.
A aposta é na elasticidade. O que se procura, nesta fase, é a versatilidade. Uma condição de facilidade e um à vontade na compreensão e análise do conceito quaisquer que sejam os contextos onde surja, quaisquer que sejam as migrações e transferências que tenha conhecido, sejam de linguagem, de especialidade ou de área temática.
Se, como dizia Vitorino Nemésio, viajar é das formas mais robustas e completas de conhecimento, colocar o conceito a viajar é apostar nas migrações, na transferência e nas suas diversas aplicações, fora de portas.
Da mesma forma que viajar engrandece quem viaja pela exposição a novas paisagens, não o fazendo perder a identidade antes reforçando-a, a aprendizagem de um conceito ganha consistência e elasticidade quando enquadrada e alimentada em paisagens que, inicialmente, estavam longe de serem considerados como destinos ou zonas de acolhimento do conceito.

 


HORA 11

Agora que tratamos o conceito por tu… que temos dele um visão ampla, específica…, que o conhecemos nas suas diversas facetas e aplicações…, que somos capazes de o conceber em todo o tipo de paisagens, reconhecendo-o…
estamos em condições de experimentar um novo salto.

Tudo quanto fizemos para trás é de uma relevância enorme. Mas não deixa de ter algo em comum:
- é o que temos, as coisas a que já chegamos, o que existe.

E se ter uma perceção e domínio do que existe e está à nossa disposição, em plano global, em panorâmica, é obra ! …, é também sinal para irmos mais longe e, a APRENDIZAGEM, tem a obrigação de o proporcionar como exercício.
Onde é que esta ideia, inerente ao conceito, nos pode conduzir ?
O que poderemos retirar do que já existe, como bilhete para o que não existe ?
Onde poderemos chegar, que novos horizontes ?
Onde é que já nos vimos chegar ou perto, mesmo desconhecendo o que nos espera ?

Esta válvula para o pensamento criativo, para novas formas de pensar de maneira a gerar o nunca visto, nunca ouvido…, é um caminho a que a aprendizagem não pode continuar a virar costas, antes adotar como obrigação e desígnio. Para o aprendente e para a vida.

 

APRENDIZAGEM  A HORAS
Já vi, bastantes vezes, a extensão revelar-se inimiga da intenção.
Pode não ser uma inevitabilidade. Mas não deixa de ser uma fortíssima possibilidade.
Foi, recenado tal efeito, que procurei ser sintético, não dedicando nunca mais do que uma folha por hora. E rodar a 1 folha por hora…, é uma velocidade lenta. Propositadamente lenta ! Para que a APRENDIZAGEM se pudesse processar ao ritmo da leitura, em lume brando, em ritmo de embalo, sem empurrões.

A intenção foi, é, a melhor.
Contribuir para uma visão espectral da APRENDIZAGEM.
E permitir caminhadas, necessariamente diversas, desejavelmente distintas, a proporcionar ao aprendente.
A ideia de ilustrar o modelo a partir de uma referência ( relógio / horas ), não tanto no “ como fazer “ e mais nas etapas a seguir e sequência, foi a forma encontrada para introduzir rigor e para mapear a caminhada em perspetiva.
A flexibilidade só faz sentido e ganha identidade em contextos disciplinados. Fora deles, chama-se “ balda “ !

Poderá, este texto, vir a ser criticado por vários lados.
Por ser demasiado extenso, ou demasiado pequeno.
Por ser algo atrevido ou especialmente insosso.
Por ser pretensioso ou de uma banalidade arrepiante.
Admito.
Mas há uma coisa em que, mesmo fazendo o pino, jamais poderá ser alvo de crítica:
- está feito e apresentado e não copia o que existe !

E esta condição chega-me.
Chega-me aos sentidos, chega-me à vontade. De fazer mais.
De colocar o texto em algumas mãos que o queiram receber e estejam dispostas a devolver. O que sentiram ao lê-lo. E o que prefeririam ler e não leram. E o que leram e prefeririam não ter lido.
E quando obtiver de volta todo este capital, vai-me chegar.
Vai-me chegar a vontade de fazer mais. E, se não for mais, que seja melhor.
Porque é o melhor que me anima, não o certo.
Não se pode estar mais certo do que certo.
Mas pode-se sempre…, estar melhor do que melhor !

 

1ªetapa - Cópia

 

2ªetapa

 

3ªEtapa

 

4ªetapa

 

5ªetapa

 

6ªetapa

 

7ªetapa